quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Estranhos


Aquela era mais uma manhã cinza como haviam sido quase todas as dos últimos doze meses. Ele fez o café, preparou seus waffers e sentou-se com sua parte do jornal para degustar o café na mesa. Ela pegou uma caneca de café para si, fez suas torradas e sentou-se para tomar seu café olhando as notícias do dia em seu Ipad. Trocaram um "bom dia" impessoal, por educação. 

Tudo começou há algum tempo atrás, quando as palavras que trocavam tornaram-se mínimas. Ela se fechara em seu mundo após a demissão do emprego e ele tentara fazê-la abrir a porta sem sucesso. Depois disso, ele simplesmente desistiu. Mudou-se do quarto que compartilhavam para o escritório e lá realizava seu trabalho, dormia e via os dias passarem no calendário. Ela não reclamara, apenas aceitara em silêncio.

E então de repente, como se algo estivesse destinado a mudar naquele dia, ele olhou para ela e perguntou:

- Porque você não fala mais comigo?

- Eu? Acho que ambos não falamos mais um com o outro há muito tempo. - ela retrucou.

- E o que aconteceu conosco? Como nos transformamos em "estranhos" assim?

- Eu não sei, só não espero que esteja começando esse diálogo para me culpar.

- Eu não quero culpá-la de nada, só quero entender porque deixamos de ser quem éramos, porque deixamos de agir como agíamos...

- As pessoas mudam, a vida muda as pessoas, os acontecimentos mudam as pessoas e outras pessoas mudam as pessoas.

- Sim, mas mudam para que elas se tornem estranhas umas com as outras depois de tantas coisas boas que compartilharam, depois de tantos sentimentos trocados?

- Os sentimentos também mudam nas pessoas, nada permanece igual. Você está sendo tolo.

- Tolo? Tolo por querer manter o que era bom ou tolo por suportar a continuidade do que é ruim?

- Então, agora sim você chegou na parte em que culpa.

- Eu não te culpo. Eu só acho que chegamos à um estágio onde não fazemos bem um ao outro. Estamos vivendo na indiferença, na estranheza, no alheamento do outro e isso não é bom para ninguém.

- E qual a sua solução para isso? Você vai embora ou está me pedindo para ir?

Ele suspirou e a olhou mais uma vez. Ela de perfil, olhava pela janela sem encará-lo.

- Vou fazer minhas malas.

- Tudo bem.

- Tudo bem.

E assim terminou o café daquela manhã. Dois estranhos. Uma nova separação.  E o que passava pela cabeça dele era "quando não há mais o que resgatar, então é melhor apagar as luzes, fechar a porta e ir embora". E assim foi para ambos. Ele partiu e ela ficou. Dois estranhos. Não se viram mais, não mais se falaram.


Recomeçar...



Ás vezes só precisamos de um lugar para recomeçar, de uma nova trilha para caminhar e de um novo horizonte para sonhar.